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Mohave acredita que há gás natural em Alcobaça com viabilidade de exploração ao longo de uma década

 

A Mohave Oil and Gas Corporation acredita que no subsolo da cidade de Alcobaça se podem encontrar “reservatórios com áreas da ordem de 1.100 hectares com volumes potenciais de 5 a 6 mil milhões de metros cúbicos de gás”. Uma expectativa que, a confirmar-se, “poderá representar uma produção de dois milhões de metros cúbicos por dia ao longo de oito a dez anos”. Números que, para leigos, ganham mais sentido se tivermos em conta que numa casa com caldeira e fogão a gás se gasta uma média de 2 mil metros cúbicos por ano.

Os dados foram avançados pelo geólogo da empresa norte-americana, Rui Vieira, na passada segunda-feira, durante a sessão de esclarecimento sobre a intenção da Mohave em levar a cabo trabalhos de perfuração no perímetro urbano de Alcobaça, junto à VCI (na zona da Quinta do Telheiro).

Apesar de aberta a toda a comunidade, apenas estiveram presentes cerca de 20 cidadãos interessados, sem contar com os jornalistas e técnicos presentes, que eram em maior número.

As perspectivas da empresa decorrem do trabalho de prospecção realizado em 2011, no qual “a Mohave identificou uma estrutura geológica de interesse relevante e identificou o local para a realização de uma sondagem de pesquisa de gás natural”. Mas agora, só a perfuração poderá confirmar, ou afastar de vez, a existência de gás natural e a viabilidade da sua exploração.

Para já, a empresa decidiu investir na perfuração, com probabilidades de sucesso na ordem dos 30%. Um número que poderia parecer baixo em qualquer outro investimento, mas que é “considerável” no sector petrolífero, onde probabilidades de 10% já motivam investimentos.

A Direcção Geral de Energia e Geologia (DGEG) já emitiu parecer favorável aos trabalhos e até o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico considera não haver riscos para o Mosteiro de Alcobaça, que fica a cerca de 750 metros de distância dos trabalhos.

Falta apenas a luz verde por parte da autarquia, que quer saber todos os pormenores sobre a perfuração e os seus impactos. O presidente da Câmara, Paulo Inácio, que já reuniu com os outros membros do executivo, com o IGESPAR e com a tutela, quis ainda obter um parecer da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, cuja posição era ainda desconhecida até ao fecho desta edição.

Quatro meses a trabalhar 24 horas por dia

De acordo com o director-geral da empresa petrolífera, Arlindo Alves, assim que se obtiver o consentimento de todas as entidades com competência na matéria, haverá reuniões com a Protecção Civil e serão contactadas todas as pessoas que residem nas imediações da zona a perfurar. Pelas contas da autarquia, são cerca 20 as construções que se encontram num raio de 200 metros, um número que aumenta para as 40 construções num raio de 300 metros. A breve trecho deverá também ser instalada a plataforma que permite a realização dos trabalhos, que deverá ocupar uma área equivalente a um hectare (um campo de futebol).

A empresa pretende fazer perfurações a mais de três mil metros de profundidade, num trabalho que se deverá prolongar por quatro meses e que, “até por razões de segurança”, tem que ser realizado 24 horas por dia, esclarece Rui Vieira.

Os impactos dos trabalhos e a segurança de população e bens são o maior receio de Paulo Inácio, que prometeu uma posição para os próximos dias.

Apesar de admitir alguns constrangimentos para a população, nomeadamente as alterações ao trânsito, algum ruído e alterações no solo, a Mohave garante que todos os impactos são temporários e minimizados, estando garantida a segurança para bens e pessoas.

“A única razão por que estamos aqui é porque esta é, infelizmente, uma actividade desconhecida em Portugal”, considerou Virgílio Cabrita da Silva, consultor para a DGEG, acrescentando que aquilo que a Mohave quer fazer “é uma actividade comum em muitas partes do mundo”. Como exemplos, apontou os trabalhos similares realizados em diversas cidades com elevados níveis populacionais, como Los Angeles, Roterdão ou Turim.

Com mais de 572 mil horas de trabalho em Portugal, a Mohave não registou, até hoje, qualquer incidente. Um dado que Rui Vieira diz reflectir o empenho da empresa na segurança. Garantida ficou também a protecção ambiental e a informação das populações. Um historial que leva o sub-director da DGEG, Carlos Caxaria, a dizer que “nada leva a pensar que haverá algum incómodo” com os trabalhos já aprovados pela entidade.

Salientando que por enquanto a Mohave ainda só tem expectativas, Rui Vieira deixou desde já a garantia de que caso se encontre gás natural, a sua exploração “terá um impacto relativamente minimizado”. E deixa o alerta de que, “independentemente do que é a produção de gás, a indústria petrolífera traz sempre benefícios à comunidade”.

Cerca de duas décadas a “bater pedra” convictos no sucesso

A Mohave não é a primeira empresa a procurar gás natural (que por sua vez é um indicador da possibilidade de existência de petróleo no subsolo) em terras de Alcobaça, onde está desde 1993. Já antes da sua chegada, uma outra empresa tinha feito, sem sucesso, trabalhos de sondagem na zona de Turquel.

Mas esta empresa do Texas é mais persistente, tendo investido já cerca de 100 milhões de dólares americanos (cerca de 75 milhões de euros) em trabalhos realizados sobretudo na zona de Alcobaça e de Torres Vedras. “Enquanto outras empresas vieram e foram embora nós ainda aqui estamos a bater em pedra dura, convencidos de que vamos ter sucesso”, disse Rui Vieira.

Na reunião de segunda-feira voltou a ser abordada a inexistência de royalties (percentagens pré-definidas das vendas finais ou dos lucros obtidos por aquele que extrai o recurso natural) para os municípios no caso da exploração de recursos naturais no subsolo. Para Paulo Inácio há que pôr os olhos na legislação brasileira, “que trata muito bem os seus municípios”.